Dia do homem: Você já se encontrou?

de Pedro Prellwitz em November 19, 2021

Recentemente parei em um texto do ex-tenista Fernando Meligeni em que ele analisava a situação do Roger Federer, a saga de um dos maiores, se não o maior, tenista de todos os tempos.

Federer vem sofrendo há algumas temporadas para manter o nível sempre alto de suas atuações e caminha para a 4ª temporada sem um título de Grand Slam (Grand Slam é o nome dos chamados 4 principais títulos da temporada no tênis). 

Cirurgias e problemas se acumulam para o atleta que está chegando ano que vem, na data provável do seu retorno, aos 41 anos. No bonito texto feito ao Federer, Meligeni fala sobre essa tentativa de "last dance" de Federer. Quantos de nós já não tentaram um "last dance" de algo que gostamos muito e nos fez feliz?

Federer não está muito preocupado com números e com o seu ego, escreve Meligeni, e diz que para muitos tenistas o esporte é sobre muito mais do que isso, o tênis para Federer é sobre o viver.

Ele reluta a se aposentar talvez porque, como dizem no mundo do futebol, jogador de futebol morre duas vezes: quando se aposenta e quando morre.

Quando o Kobe Bryant se aposentou, ele escreveu um texto cheio de significado a um portal que recebe textos mais profundos de atletas. Ele escreveu o seguinte:

 

 

A declaração de amor do Kobe ao esporte,  dizendo que assim que começou a arremessar as meias do pai pela casa quando criança e sentiu algo mágico que fez ele se entregar completamente ao esporte, dando tudo de si, casa muito com o texto do Meligeni sobre o Federer e sobre algo que vez o outra topamos em vida: gente que de certa forma "se encontrou".

O dia dos homens geralmente é tomado por discussões de todos os tipos, dado os tempos plurais e conectados que vivemos, entre polêmicas e avanços.

Aqui na Vito adoramos discutir os miúdos da vida moderna nos horários de intervalo e resenha, mas nesse dia do homem queria relembrar algo que conecta muito bem os dois lindos textos e que sempre foi algo muito básico para a gente: a ideia de que "o homem quando está em paz não quer guerra com ninguém".

Quando a gente lê esses casos extremos de gente icônica no esporte, fica parecendo que estar em paz e se achar na vida, encontrar a sua, é algo para poucos. Mas será que é mesmo?

Na minha vivência, não. Hoje vivemos em uma era em que nunca vivemos tanto e tão bem, uma era em que pela primeira vez na história morre mais gente de obesidade do que de fome, e apesar de a vida em sociedade ser muito complexa e ainda que o nosso modo de viver coletivo gere muita discussão e sofrimento, no fim das contas nascemos no melhor período para se ter nascido na história.

Uma pessoa comum em um país emergente vive mais e melhor do que um rei europeu vivia há dois séculos, que é um período insignificante dado que nós seres humanos existimos com essas características há mais de 200 mil anos.

Existe muito ainda a ser feito e por mais que a gente viva na era mais abundante da história, sabemos que falta muito.

E mesmo que a gente esteja nesse período da história de maior paz, saúde e indicadores sócio-econômicos, por que sentimos esse mal estar civilizatório?  

 Na minha modestíssima opinião de um adorador do tema, isso passa muito pelo lado ruim da era que nascemos: a era da abundância é também a era das mil possibilidades e todos sabemos como nós, seres humanos, temos dificuldade em tomar decisões. Sem contar o quanto cada possibilidade a mais muitas vezes pode só gerar mais incerteza. 

Isso vira ansiedade e no fim das contas diz muito porque estamos em um pico de suicídios, uso de remédios psiquiátricos, abuso de drogas, busca por religiões como budismo e outros vários sinais ruins.

 Uma vez tive uma conversa com um amigo que quase virou tenista profissional e o pai dele era relativamente próximo ao Meligeni. Quando eles estavam falando do futuro desse meu amigo como tenista, o Meligeni disse o seguinte:

- Sabe qual é o problema da carreira dele? O problema é que você faz parecer para ele que existem várias possibilidades na vida dele. Ele pensa que se não der certo no tênis, ele pode tentar fazer uma faculdade com bolsa nos EUA por jogar tênis e que vai ser feliz igual. Que ele pode usar os aprendizados do tênis na vida profissional dele. E embora tudo isso seja verdade, ele vai jogar com gente do outro lado da quadra que está encarando o tênis é a única oportunidade que tem na vida.

Quando eu ouvi essa história, na hora veio na cabeça a história da Serena Williams, do Djokovic, de todos os eslavos e imigrantes que dominam o circuito de maneira desproporcional às suas populações. A campeã do US Open de 2021 é filha de imigrante romeno na Inglaterra, a de 2020 é filha de imigrante haitiano no Japão, e a de 2019 é filha de pais romenos no Canadá.

Será que é só coincidência que essa gente com histórico de imigração e preconceito está tendo muito destaque naquele que é dos esportes mais dependem do jogo mental?

Isso me leva para uma frase do Sartre que a minha terapeuta sempre disse: "não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim". 

Essa frase famosa conecta com muita coisa, mas a principal para mim é o olhar para dentro. Entender a nossa parte a despeito do ticket que tiramos na loteria da vida. Todo mundo sabe como a vida pode ser injusta e quanta gente está lutando para sobreviver. Mas a sensação que tenho é que o Federer virou o Federer, o Meligeni virou o Meligeni e essas campeãs do US Open viraram campeãs porque o ato um foi entender que ali na atividade que estavam fazendo tinha algo mais. Porque de certa forma calaram as vozes das mil possibilidades e a voz da nenhuma possibilidade

E, a partir disso, confiaram em explorar mais e mais desse caminho proprietário, seja no amor, nas amizades ou na carreira. Como se enxerga no budismo, é o controle de não se importar com coisas que não importam tanto e um controle em estar satisfeito com aquele caminho que se está tomando.

E conforme foram seguindo, dessa forma desajeitada que é o nosso viver, foram encontrando mais coisas legais pelo caminho. Ou fizeram algum ajuste na rota.

Acho muito poderosa a ideia de que você só é livre se tomar risco. Risco de encontrar gente que se parece com você, que faz sua vida melhor. Mas risco de sofrer, de errar e de perder oportunidades.

De estar em um ambiente com gente que você percebe que não tem mais a ver com a fase que você está vivendo. Que você sabe que está atrasando o seu plano. E que o seu plano é o que mais importa.

Eu sou um cara de sorte porque tenho muita gente que seguiu esse caminho. Uma das histórias que eu mais gosto é de um conhecido que virou amigo, ele trabalhava na agência que atendia a conta da Men's Market.

Fui descobrir mais pra frente que ele era muito amigo de um dos meus melhores amigos e tocava absurdamente violão. E depois de tanto sofrer no ambiente corporativo, decidiu pegar a música, algo que ele tinha muito talento e foi à luta. No começo sacrificando um pouco os finais de semana para sentir, ver se existia ali algo de fato e aos poucos pulou 100% no barco.

Depois de quase uma década que eu conheci a versão 1 dele na agência, não consigo mais pensar que ele foi aquela pessoa. Para quem quiser conhecer o trabalho dele, aqui vai o Instagram dele: https://www.instagram.com/filippe_dias

Ele virou um baita músico. Pára muita gente na Av. Paulista. Ver ele tocar toca o coração, porque nós humanos nos sentimos inerentemente bem perto de gente que se encontrou. Boa parte de ir em um show ao vivo é a exuberância de encontrar gente no palco que se encontrou de forma transcendental na vida. Ninguém vira um músico que sobe no palco de um show sem ter trilhado uma trilha diferente em algum sentido. 

Hoje quando eu vejo esse cara, fico pensando: quanta gente que supostamente "venceu"na vida não queria ser ele? O cara encarnou o dharma (nome usado no budismo que remete a preenchimento, propósito) de tal forma que você não consegue imaginar como algum outro dia ele chegou a fazer outra coisa da vida. Eu gosto desse exemplo porque me dá a certeza que a natureza não reservou somente a Federers e Meligenis essa dádiva que é viver cem por cento no presente.

Gente que se encontrou não liga se o outro dorme com outro homem, com uma mulher de menos ou mais idade, se dorme sozinho ou com o cachorro. Essa gente descobriu, de certa forma, que o olhar para dentro basta, não está engajada em competições sem sentido, naquelas pequenices que nos tomam tempo e atenção e não nos levam a nada.

Nesse dia do homem, o que a Vito tem para dizer é para você se ouvir mais, para você cuidar mais de você, dos seus hobbies, das suas rotinas e dos seus.

Mas que isso não é suficiente: você precisa tomar risco pelas coisas que sente que podem te fazer encontrar, explorar, tatear, nós precisamos nos escutarmos.

E que isso faça todos nós percebermos que é um caminho sem volta você viver uma vida em busca daquilo que é teu nesse mundo.

Isso nos faz melhores como homens e homens melhores fazem o nosso mundo melhor. Estamos precisando disso.

 

 

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